Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

VEZES 100 CONTO

All has not been said and never will be. Samuel Beckett

Vozes de Burro|Análise

Vozes de Burro | Carlos M. J. Alves

Edição Cloudy Morning | 2018 

31183464_10155662945848528_2421027331943432192_n -

 

Seguindo a tradição da compleição sucinta do conto, o que melhor define o conjunto de textos intitulado “Vozes de Burro”, Prémio Alves Redol 2017, são o serem narrativas que ilustram e denunciam, no detalhe e com realismo, as oscilações, reincidências e peripécias gerais do rebuliço identificável no emaranhado de situações, presente no histórico das inconsistências e contradições quotidianas que nos rodeia e reflete.

Portas de entrada para o movediço do absurdo e inevitável das vidas caseiras, aludindo a Irene Lisboa.

Uma análise com núpcias na complexidade do que se afigura simples sendo, todavia, essencial.

Que vai ao mais íntimo do universo caótico da paternidade e embaraços ingénuos do crescimento às aflições da idade, passando pelo conturbado das relações familiares e de amizade, desigualdades, traições dos amores e desencantos com os desamores, o vencedor no antagonismo com o vencido....

Um registo de histórias que avança trocista e amoral pelos imprevistos da condição humana e os seus esconderijos: as suas frustrações, perdas, rupturas, fragilidades, contrições, arrogâncias, temperamentos, ansiedades, intransigências, revoluções e revoltas (políticas e interiores) e mortes.

Uma reflexão sarcástica em que a linguagem natural da ironia encontra, com perspicácia, no dia a dia, a vocação suficiente para registar o vai e vem de uma investigação sobre uma natureza que, também, nos é comum e que se materializa em personagens palpáveis, cuja artificialidade se esgota na sua índole ficcionada, com características que encontramos em nós e no virar da esquina mais próxima.

Dito de outra maneira, um livro de grandes perguntas com pequenas respostas (o simples é sempre mais difícil de conseguir).

Consciente do seu tempo e dos problemas que o constituem. Um promontório de onde se avista, em toda a sua extensão, a natureza humana.

Um livro motivado pela procura do sentido, nem sempre evidente e, às vezes, até absurdo.

Mergulhado na vacuidade existencial e na busca individual de si próprio, pela observação dos outros. Nas angústias e agruras das vidas a conta gotas. Os desafios dos que não chegam a lado nenhum. O desespero dos últimos (que merecem ter alguém que torça por si).

Um voyeurismo da condição humana, inclusive na sua decadência, nos muros que se lhe erguem, denotando as contingências, vitórias e derrotas da vida, mais o amor, ódio e a fé, inconvencional, segura que depois do fim apenas sobra a imortalidade do nada.

Um livro sobre o que falhamos, o que nos maltrata, incentiva e o que se encerra em nós. Da diferença e normalidade.

Uma observação a espaços na primeira pessoa, mas na fronteira com o outro.

Um exercício irónico e mordaz de reflexão, nem sempre capaz de fazer de conta, sobre o que nos motiva inquietação e, por vezes, pessimismo e descontentamento, descomprometido com finais felizes.

Que espreita, sem fingir, despudorado, pelo buraco da fechadura das nossas consciências e segredos.

Discordando da premissa de que dos fracos não reza a história. Tornando evidente que o que serve para os outros pode não servir para nós ou vice versa.

Com a esperança de com as lágrimas, a seguir a elas, vem a bonança dos melhores dias.

As reticências que faltam ao título alastram pela maioria das histórias, devido ao seu indefinido final.

Organizam-se sob o nome de Vozes de Burro (sem reticências) porque há gente que vê mal em tudo e assume sempre o pior e quanto a isso, temos pelo menos a garantia de que vozes de burro, bem o resto é de conhecimento geral.

Para esclarecimento complementar, as vozes de burro são como as boas intenções, frequentes e óbvias como as vírgulas que, apesar das regras, parecem variar ao sabor do gosto. Ainda assim, são preferíveis as boas intenções porque, mal por mal, chegam a algum lado. Em relação a essas é possível ter expectativas, já em relação às vozes de burro só podemos oferecer... orelhas moucas.

Tudo isso faz parte do mundo em que vivemos, cheio de divas que não sabem cantar. Em relação a ele tem-se até, às vezes, a sensação de ter nascido com o coração errado.

Quanto à paráfrase sobre as vidas caseiras, que vem no livro, de que é alvo Irene Lisboa e que merece identificação tanto como uma citação diga-se que, em relação às vidas caseiras, elas contêm, por vezes, vários romances que cabem muito bem num conto.

Ainda acerca do título, para além do óbvio que é o de ser uma referência a um dos textos incluídos no livro servirá de carapuça, não intencional, para alguns.

Não há manual nem ele é preciso para a leitura destas “Vozes de Burro”. São o que o autor é e vê, em ficção. Descrente da escrita automática e dedicada em exclusividade à autogratificação do próprio. Sem paciência para reverências de santo a escritores da preferência, em relação ao qual se fica sempre aquém e à submissão dos ditames do gosto pessoal. Sem alternativa para fazer de outra maneira. Do mesmo modo que independentemente da motivação respirar debaixo de água tem muito de vozes de burro que...