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VEZES 100 CONTO

All has not been said and never will be. Samuel Beckett

Saco Roto - enganar muita gente durante um certo tempo, algumas pessoas todo o tempo, mas nunca para sempre

 

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Cair em saco roto é vulgar, de quem não gosta de desafios e na direta proporcionalidade da indiferença.

Um remoinho, traiçoeiro, na espuma dos dias que arrasta, discreta e fatalmente, para o fundo os que lutam, simplesmente, por se manter à tona tanto quanto os que querem chegar o mais longe possível.

Raramente se houve gritar "homem ao mar!" na esperança de salvar do lamaçal medíocre das mesmas soluções de sempre os que não se querem deixar arrastar pela corrente.

Não é fácil resistir-lhe!

Cair em saco roto é uma arte obtusa, ancestral e enraizada como um refugado monótono que deixa de água na boca os de palato simples. 

Tem vistas curtas e é executada com matizes pacificadores. Orquestrada com melodias de canção do bandido, capazes de fazer corar de inveja o mais hábil flautista de Hamelin, pelos que querem ver os outros de viola no saco.

Um jogo viciado, de batota consentida, em que as melhores cartas nunca chegam às nossas mãos.

É oferecerem-nos, generosamente, um “sim” bem intencionado, só para nos calarem, que acaba, no fim, como um meloso “como eu quero”.

É subtil.

Todo sorrisos e palmadinhas nas costas.

E compreensão.

Tem memória curta e só para o que lhe interessa.

É de quem, enebriado pelo poder (ou pela ilusão de o deter), se põe no nosso lugar mas que regressa, rapidamente, ao seu.

É ajudarem-nos, de forma insuspeita mas, no fundo, estarem a convencer-nos da probabilidade de algo em que só nós acreditamos.

Cala a revolta mas é falar para o boneco.

É ilusoriamente retemperador.

É agradecerem-nos termos chamado a atenção e não haver consequências nem partilha de dividendos.

É ecuménico e politicamente democrático, na igual medida em que é uma fé cega e uma política de faz de conta.

É oferecer-se para ouvir e ficar indisponível para trocar ou mudar.

Concordar sabendo que vai ficar tudo igual.

O saco roto afasta as novas ideias.

Desvaloriza Know-How e afasta quem quer dar o corpo ao manifesto.

É um “Humm, Humm!” com um “deves achar que” implícito.

Atira percentagens e estribilha convicções só para nos desarmar.

Sorri-nos sem nos estar, realmente, a ouvir.

O saco roto é enganador porque é solidário e conciliador.

Diplomático.

Um faz de conta.

Nele abundam os “ses” e os “mas” e os “talvez”.

É ficarmos contentes com a reunião, ficar tudo na mesma, nós termos caído na esparrela de uma arbitragem viciada e à saída termos agradecido.

No entanto, como diria Abraham Lincoln: "pode enganar-se muita gente durante um certo tempo. Pode até enganar-se algumas pessoas todo o tempo, mas não será possível enganá-las para sempre".

Além do mais, o cair em saco roto tem, obviamente, um preço elevado e apresenta uma fatura repartida por todos: o desinteresse.

E o desinteresse com desinteresse se paga.

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