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VEZES 100 CONTO

All has not been said and never will be. Samuel Beckett

Mergulhos, escaldões e bolas de Berlim | Diários da toalha de praia

 

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Há riqueza pelintra nas esplanadas. À distância ouve-se a buzina do Call of the Wild das bolas de Berlim.

As matriarcas zelam pelo bem-estar de todos e sacodem a areia como granola, na mesa posta para o pequeno-almoço, das toalhas.

Duas Spice Girls dormem resguardadas pelo chapéu de sol.

Um atleta ocasional vestindo um dorsal corajoso a dizer “30 km finisher” está, pé ante pé, à mercê da impreparação, prestes a estourar.

A adolescente da rua toca, incessantemente, na viola herdada, Vampire Weekend.

Os vizinhos do lado, de Moura, almoçam sempre, expansivos nos decibéis, de porta aberta.

Começo a desacelerar do resto do ano, mas fujo aos perigos, desviando-me de pessoas telecomandadas com direito ao melhor dos dias e dos lugares-comuns por todo lado. 

O sol vai aparecendo e fugindo, vivendo  de uma espécie de crédito  em que cada um vai pondo mais moedas e que mal elas expiram retorna a sombra.

Dois opositores numa esgrima desconexa de raquetes atraiem as atenções com os seus serviços não direcionados.

A gaiola dourada escancarada a toute vitesse no areal deixa à mostra, numa maré vazia de misérias exibicionistas, pouco franciscanas, corpos alourando como bacalhaus secos, em banho Maria, ao forno amansado a fator 45 Ambre Solaire.

Um arrastão unido por uma só vontade, esbraceja esganiçado o seu intuito com ganas de meu querido mês de agosto: aproveitar as férias au Portugal.

A pele como mata-borrão absorvente ensopada em lipídios perfumados regeneradores brilha em clarões untuosos. Autênticas muralhas da China intransponíveis à força demoníaca dos UVS.

Sem óculos conto 5 Ronaldos a dar toques com a pele panada de fresco. Quando o autêntico se retirar haverá continuidade do nome garantida, para milénios, até à extinção da humanidade.

Uma motorizada ocupa a totalidade dorsal de um  aficionado por tatuagens que ofereceu, também, à causa um bícepes para o X que marca a carreira dos Xutos & Pontapés.

Autênticas sebes de rosas, sem espinhos, sobem tornozelo acima das senhoras e os dragões deixaram de ser figuras míticas, num Game of Thrones para domésticas à vista de todos.

Coroas vão reinando no coiro escaravunça do verão em zénite a meias com Che Guevaras.

Grosso modo um mar flat para os insuflados Leclerc chega à conta para os homens bomba que se atiram da parede que sustenta os carros em estacionamento clandestino.

O melão sufocando na Tupperware, já sem tripas, passa de mão em mão, enquanto alguém com demasiadas mossas para Brigitte Bardot vai custeando o governo com encargos que remontam à fundação.

Entre farpas vão-se gritando olés ao estrangeiro do resto do ano. Um el dorado de terra do mel e seiva em abundância a que se subtrai a saudade aos da casa que ficam cá chafurdando no mesmo de sempre que nunca terá remédio.

Num misto de entusiasmo e susto saem, em ombros, gritando olés à Gália que os acolhe e à praia a “amarretar” em “bandemónio” que faz inveja aos voisins a uma semana curta de distância que os faz ter já na ponta da língua, enquanto escovam o veludo das orelhas do salsicha, ilesos da acunpultura dos dias de vento, um: au revoir, até pró ano.

Que bem que se está na praia!

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