Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

VEZES 100 CONTO

All has not been said and never will be. Samuel Beckett

Lugares vagos

 

IMG_0701.jpg

Para o Luís, a quem continuo a guardar o lugar.

 

Há algum tempo que já não falo com ele (Desculpa! Da última vez percebi-te o sofrimento na voz e fiquei sem coragem para te voltar a ligar).

Aparentemente o Luís não está nas redes sociais. É dos poucos que ainda se reserva o direito de guardar para si o que é só seu ou de uns poucos.

Por causa disso não posso por-lhe likes na recuperação. Nem seguir on line os progressos.

O Luís já era assim antes das redes sociais. Quem quisesse pôr-lhe likes tinha que falar com ele, passar tempo consigo ou ir às suas exposições.

Lia-se nele a generosidade e sinceridade através de uma acessibilidade própria dos que não mostram o jogo todo. 

O Luís sempre pintou aguarelas. É um género que francamente não aprecio. Mas para ele sempre abri uma exceção.

Vendeu-me o primeiro carro (os seus bólides sempre foram uns infantes resguardados numa bolha de cuidados permanentes). Um Mini “Com tudo ainda de origem”, fim de citação. Também me vendeu a primeira casa. Um apartamento personalizado por ele até à escolha das tejoleiras e o tamanho das janelas.

É bem provável que a certa altura conseguisse vender qualquer coisa. E chegou mesmo a fazê-lo: material de escritório de embaixada, propriedades, quadros…

Despachava monos como certos pugilistas são capazes de derrubar adversários. Com lábia suficiente para conseguir um knock-out consumista ávido de salvados.

Os exemplares da coleção Vampiro e as obras completas de Agatha Christie, da editora Livros do Brasil, que tenho foi ele que me ofereceu de uma herança familiar.

Todos os dias me deixava sair de casa (não a que me tinha vendido) ao ver-me assomar com a traseira do carro (o MIni já ficara para trás há muitas mãos) ao portão ao fazer-me à entrada na estrada sobrelotada com as impaciências matinais.

Alguns buzinavam-lhe porque nem sempre a sua boa vontade coincidia com a minha saída e ele ficava à espera até eu carregar tudo na bagageira.

Sempre trabalhámos no mesmo sítio. Ele chegava primeiro apesar de me dar passagem prioritária. Eu ficava pelo caminho a deixar as MIÚDAS. 

Quando eu chegava ele já estava sentado no sítio do costume e perguntava-me pelos MIÚDOS. Eu corrigia-o e conversávamos sobre os assuntos do costume.

Enquanto deu foi fumando os cigarros entre conversas. Depois veio o politicamente correto e passou a correr para o seu carro bem estimado para o fazer.

A partir de certa altura foi ficando doente.

Provavelmente desde que começou a emagrecer.

Como certos pugilistas que são capazes de derrubar adversário e po-los K.O (como ele era capaz de despachar monos) estava otimista.

A partir de certa altura estava demasiado debilitado para voltar.

Deixou de me dar prioridade à saída do portão quando eu saía de manhã de casa.

Luís, os MIÚDOS estão ótimos. A mais nova está quase a entrar para o liceu e a mais velha já tem treze.

Pelo sim pelo não, continuo a guardar-te o lugar. Fazes-me falta. Temos muita conversa para por em dia.

Alguém me perguntou por um computador em segunda mão. Sabes de algum?

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.