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VEZES 100 CONTO

All has not been said and never will be. Samuel Beckett

Intrometidos há muitos (provavelmente perto de si)

 

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Dedicado a todas as vítimas que sofrem às mãos dos intrometidos e aos que resistem aos seus avanços.

 

O intrometido é de tipologia reconhecível. Tem charme besuntão. Lealdade de Judas.

É um adorador dos iguais a si.

Abelhudo e com língua extrovertida sem tento. Diz sem lhe perguntarem e questiona sem vir a propósito.

Senta-se à espera, numa fila única, pelo que fazer à sua inutilidade.

Espreita e aproveita as ocasiões.

Mete-se.

Intromete-se.

Está sempre à coca e de olhos ocupados com o que não lhe diz respeito.

Vê quem passa o cartão, quem falta, confere horários e tem interesses estatísticos sobre o irrelevante.

Oferece-se, púdico, para conselheiro e finge ingenuidade, desinteressada, de noviça.

Tira-nos o tapete com mãos malabaristas de pilha galinhas.

Engraxa, chateia, entedia à sua passagem.

Chega, em passada larga, sempre primeiro e sai em último, batendo a porta com o estardalhaço de quem quer que reparem em si.

Aparece antes do padeiro e abandona as instalações depois do guarda noturno.

Também passa à frente, mas como quem segura a porta para os que vêm atrás.

Desbarata opiniões não solicitadas. Comenta sobre o que já se sabe o desfecho. Cita o que não leu e disserta sobre o que desconhece.

Tem a assertividade, requentada, dos que não sabem.

Verborreia.

É todo ouvidos. Topa tudo, aparenta pose informada, dá atenção ao que não interessa e oferece-se para o que não é preciso.

Socialmente, insinua-se. Faz-se amigo. Usa várias camisolas e tem lealdade às camadas.

Toma as dores alheias e põe ar de mártir. Por causa disso tem coxas robustas e ombros largos de Atlas porque carrega o mundo às costas, libertando-o da rotação e translação.

Acha que devíamos mas exclui-se, não se mostrando recetivo para partilhar das nossas obrigações.

Desleixa-se, mas é sempre exigente (com os outros). Autorga-se prazos alargados. Autoriza-se. Confere-se. Dá-se importância.

Põe ar de quem sofre connosco, verte lágrimas de crocodilo e se precisarmos dispensa, de bom grado, um rim emprestado.

Tem uma generosidade exigindo sempre ter razão.

Tem experiência de sobra que como não usa oferece.

Ocupa espaço na inversa proporcionalidade da nulidade do interesse da sua presença.

Se pudesse ser outra coisa seria uma rotunda.

Ao contrário de outras espécies, não está em extinção e o ecossistema em que vive não está ameaçado.

É uma hiena de boa vontade amarelecida.

Instiga o vernáculo.

Parece que não tem que fazer.

Desorganiza-se.

Arranja azáfama.

Não trabalha, navega.

Entretém-se, procurando o que apresentar. Sobra-lhe tempo que usa para estar disponível, para o que lhe interessa, para os outros.

Acaba sem vida.

É por isso que o melhor é mandá-lo à fava. Ouvi-lo disfarçando a vontade de o remeter para uma curva (de preferência afastada) com motivação (ou paciência) de Dalai Lama, repetindo que a violência não se justifica.

Dão-se alvíssaras ou troca-se por um surto de sarna, a quem ficar com um que eu cá sei!

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