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VEZES 100 CONTO

All has not been said and never will be. Samuel Beckett

Ano novo?

20...19...

Em pose enigmática de agente secreto disfarçado com as prendas do Natal recente, sobraram, nas praças, semblantes embasbacados com o artifício pirotécnico do ano recém nascido.

De taça fosca, encobrindo a origem tresladada do champanhe erguida, mais alta do que o bom senso, em honra do novo ano e com as passas atravessando Gardunha adentro o esófago não há colesterol, preto e branco, IRS, hipotecas ou combustíveis mais caros.

Os olhos já não estão (se é que alguma vez estiveram) molhados pelo ano que passou. Não houve requiem nem tocaram finados.

As possibilidades são agora em formato IMAX e cromatismo Technicolor. A idade não pesa, o tabaco não mata, os cães da vizinhança não usam a nossa porta como latrina e o piroso passa a kitsch.

O início do novo ano é generoso, liberal, libertino, folgazão, irresponsável e irrealista. E ninguém leva a mal.

É o verdadeiro carnaval e nem precisa de sambódromo nem da monarquia da Globo ao léu para liderar os corsos internos repletos de juramentos transformadores.

Não sofre de azia, dores de cabeça, nem lhe dá para a urticária.

Pede time-out às exigências para embarcar em fantasias e começa logo a fazer listas de fim de ano.

Sobra-lhe em ambição o que lhe falta em ponderação. Põe prego a fundo.

No dia 1 de janeiro toda a gente publica, edita, grava, tem bom gosto é empreendedor, audaz, corajoso, elegante, inicia uma religião ou partido, planta uma árvore, lava o carro. "Deixa de" e "não se importa com".

Deixa de fumar, de passar as passas do Algarve, faz dieta, dá a volta ao mundo. Não vai em conversas. Vai à bola, aos arames… sua as estopinhas, concilia e rompe…

O novo ano está-se nas tintas e é um êxodo, uma fuga histérica às dificuldades. Encolhe os ombros às dificuldades, vira a cara ao improvável, contorna defeitos e impossibilidades.

Contrasta em vistas largas com a miopia do passado.

É um virar de página com a possibilidade de a história se repetir, apesar de se apostar em novos capítulos.

Um renovar de votos, sem garantias, mais vigário do que o vigário.

É uma fénix ótima a erguer pontes com orçamentos reduzidos e sobre as cinzas dos natais passados.

Uma prece por atender.

Dá esperança.

Não tem histórico pessoal, vive de méritos alheios e convence antes de tempo.

Tem estratégia própria, fica automaticamente no pico da forma, vence campeonatos antecipadamente, dá vitórias em competições inexistentes e corta metas antes do sinal de partida.

Compromete-se com (muito mais do que acontecerá) mudanças e é uma jovem promessa que nos deixa curiosos.

Mostra-nos coisas novas e abre-nos horizontes.

Falta-lhe convivência, intimidade para ver as falhas e tem vizinhança antiga cheia de defeitos e, por isso, segue à frente na comparação.

É mais aventureiro e não pesa nem mede os riscos porque é maior do que a vida.

Ótimo para tombar gigantes, retirar obstáculos do caminho e encontrar oportunidades num palheiro de dificuldades.

Não deixa para ontem e obriga-nos a não procrastinar hoje.

Como ainda tem tudo por fazer arrecada méritos antes de tempo.

Uma encomenda com portes por pagar.

Uma viagem que dura até para o ano.

Uma selfie, virgem, sem tabus, vinda do futuro.

Cá estaremos para ver o que ela nos revela.

Feliz 2019. Tudo a correr bem!

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