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VEZES 100 CONTO

All has not been said and never will be. Samuel Beckett

A indisponibilidade de uns é a obrigação de outros?!


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Não estão nem se obrigam a estar ou a fazer por isso.

Escusam-se.

Evitam.

Passam ao lado.

Desnorteiam, propositadamente, o GPS e riscam da agenda.

Não sabem e é quase certo que, seguramente, nunca vão querer saber.

Fora o resto, não podem nem vão poder por motivos que só lhes acontecem a eles, razões circunstanciais, estranhas, sem paralelo, inconfessáveis, incompreeensíveis e que não vêm ao caso. Mais porque sim ou só porque não.

Olham para o lado e assobiam, afinados, para o alto, num concerto abundante em lugares por preencher, impostos e selecionados por si.

Com eles não há cá talvez. É mais: "Nem por sombras!".

Lamentam, mas não têm horário para as coisas e falham, com antecedência, à última da hora.

Estão isentos através de indulto auto atribuído e, ainda assim, acham que se prejudicam.

Sofrem. Agonizam ante a hipótese de ter de ser a sua vez (que, felizmente, graças ao que der jeito e a mais qualquer coisa nunca vai chegar).

Acham que não se aplica a si.

Que são especiais.

Necessários noutro lado (incerto).

Destinados a outros voos (elevadíssimos).

Nunca é a sua hora. O seu tempo é diferente e é o nosso que, visivelmente, sobra para o que deviam fazer.

Não têm costas para carregar andores que não levam a sua imagem oca nem bolsos para peditórios alheios.

Queixam-se que não têm quem lhe tire as espinhas ou corte a carninha. Que precisavam de alguém encarregue das grainhas.

Por isso sofrem. Muito! Porque "até gostavam só que..." E acabam com dores horríveis de consciência. Em pranto histérico. Com queixumes para toda a vida. Ela que lhes é tão madrasta e que as faz gatas borralheiras quando são por direito próprio, nitidamente, cinderelas.

Para alguns a indisponibilidade é crónica. Um dado consumado.

Um direito herdado com fila própria para ir alguém no seu lugar.

Para fazer o que lhes competia.

As suas vezes.

O grande problema é o efeito dominó num jogo em que nem sabíamos que estavamos a participar.

A indisponibilidade deles tira-nos o rabo do sofá e lança-nos numa hora de ponta exclusiva.

Candidata-nos sem precisarmos de inscrição.  

Torna-nos, automaticamente, voluntários à força. Condenados a uma pena sem crime.

Atribui-nos vagares e possibilidades. Um relógio sem prazos e mais generoso para nós, lento ou acelerado consoante a sua comodidade. Rápido porque tudo se faz bem e depressa, vagaroso para ser possível e não haver desculpas.

A divisão fica comprometida. Os direitos e deveres tornam-se anedotas.

A indisponibilidade é trágica.

Os que a reclamam para si acreditam que para uns (eles) estarem bem alguém (os outros) tem que estar mal.

Para a compensar vão oferecendo presentes envenenados, embrulhados em falinhas mansas e boa vontade de faz de conta.

Felizmente a sua atitude liberta-nos dos remorsos de dizer NÃO.

E, ironicamente, embora nunca o percebam, aceitem ou considerem, para eles também nunca estaremos presentes a não ser que sejamos obrigados.