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VEZES 100 CONTO

All has not been said and never will be. Samuel Beckett

Revoluções de coffee-break

 

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Abelhas obreiras pontuais fazem soar trombetas críticas, em surdina, atraindo outras abelhas obreiras indignadas.

Um estribilho de queixumes que não passa de má vontade ou que reclama, para si, atenções em exclusividade. 

Esvoaçam entre desmotivações, tropeçam em obstáculos, deixando atrás de si um zumbido ensurdecedor de reclamações.

Ainda antes das 8.30 A.M. ouvem-se disparos revolucionários de pólvora seca.

Gritam-se direitos. Agitam-se, contidas, multidões pouco expressivas de abelhas obreiras pontuais, indignadas, revoltosas com pose de quem é diferente dos outros e que não admite isto e aquilo.

Tudo para pouco tempo depois. Rapidamente todos voltam ao que estavam a fazer, retomando os seus lugares.

As conspirações de corredor nascem da azia, mas não passam disso: CONSPIRAÇÕES DE CORREDOR.

São revoluções por acontecer organizadas por abelhas obreiras pontuais, indignadas, revoltosas com pose de quem é diferente dos outros e que não admite isto e aquilo.

Não transparecem para quem se dirigem e não contam para quem de direito.

São desabafos contidos.

Iras controladas que afunilam encarneiradas no hábito de comer e calar.

Congeminam mas poucochinho, acabando a vender-se por pouco.

Reconhecem-se pelo pêlo na venta pouco eriçado.

São revoltas serenas, compostas e bem comportadas.

Ficam atrás das portas a espreitar pelo buraco da fechadura.

São espalhafatosas quando não é preciso.

Na altura em que é preciso falar, nada! Fazem contas à vida e acabam só sorrisos.

Encolhem os ombros e ficam em lista de espera.

São lideradas por rebeldes sem vocação.

Falta-lhes um porta estandarte.

Só servem para fazer vista.

Para armar!

São frequentes mas acabam antes de começar.

Nunca darão um golpe palaciano ou conquistarão resultados.

Surgem a qualquer momento, ruidosas, mas não são para levar a sério.

Não têm história mas dão uma boa conversa para abelhas obreiras pontuais, indignadas, revoltosas com pose de quem é diferente dos outros e que não admite isto e aquilo.

E para isso chega o tempo de um coffee-break.

Vitimas do campo torto

 

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A vítima do campo torto tropeça ainda sentada.

Lesiona-se antes do aquecimento, nas irregularidades do terreno de jogo que não pisou.

Acaba na bancada chefiando a claque, numerosa, de bitaites arremessados, com desdém, para o campo de jogo onde está o plantel em que não tem lugar.

Assobia, impetuosamente, tretas.

Tem o sentido perfeito da má língua.

Diz o que lhe apetece, mas faz orelhas moucas ao que não lhe convém e que acha que não se aplica a si.

Não dá o corpo ao manifesto. Critica, mas não faz.

Acha-se mais importante e acima de suspeitas.

Pensa que as coisas acontecem por acaso. Obra e graça!

Alardeia o que fica para depois.

Põe-se na berlinda.

Não põe as ações ao pé da língua.

Nunca estão reunidas as condições.

Tem azar e escasseia, sempre, o que lhe faz falta.

É o sistema, a falta de visão alheia, o tempo, a meteorologia, os eczemas, os pólens, são os outros, é o campo…

O campo torto (que só existe devido às suas vistas curtas) prejudica-lhe o jogo que ninguém conhece. O talento que nunca ninguém viu. Desmerece os méritos invisíveis.

Atrofia-lhe visão, estratégia e dribles por inventar.

Por isso, a vítima do campo torto faz para dentro. Joga com a sua vontade impotente nas intenções. Na convicção de que se quisesse… fazia melhor, inovava, liderava, desbravava amazónias, acrescentava continentes mesmo que a estreia fosse às suas expensas.

Tem conta aberta na convicção de que um dia vai acontecer.

Puxa, regularmente, pelo cardápio avantajado e diversificado de desculpas que segue consigo para todo o lado.

Enquanto isso, continua especialista em coisa nenhuma e, na verdade, mais valia estar calado.

Até parece

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Às vezes até parece…

Que a pele sintética é verdadeira 

Que o light sabe da mesma maneira 

Que o orgasmo não é fingido 

Que o sorriso não é amarelo 

Que o elogio é genuíno 

Que o sofrimento é sentido

Que a solidariedade não é egoísta 

Que todas as mentiras são piedosas

Que masturbar é fazer amor 

Que é possível ser um alcoólico funcional

Que as drogas não viciam 

Que é inevitável ter vícios

Que é possível viver com os próprios defeitos 

Trocar amor por convivência 

Que não tem mal ser como os outros 

Ou trocar o que somos para ser como eles

Que com idade a pele não ganha manchas

Que perder ou ganhar é desporto 

Que o mundo está melhor 

Que estamos todos no mesmo barco 

Que temos todos os mesmos direitos 

Que estamos todos na mesma 

Que o tempo cura tudo 

Que tudo vai correr pelo melhor 

Que é fácil guardar segredos 

Que o creme para as rugas funciona 

Que vamos fazer a dieta 

Que o colesterol está controlado 

Que lidamos bem com a dor 

Que temos uma boa auto-estima 

Que não vamos coçar a alergia 

Que é possível a salvação 

Que deus não está morto 

Mas, de que é que isso serve?