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VEZES 100 CONTO

All has not been said and never will be. Samuel Beckett

Lugares vagos

 

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Para o Luís, a quem continuo a guardar o lugar.

 

Há algum tempo que já não falo com ele (Desculpa! Da última vez percebi-te o sofrimento na voz e fiquei sem coragem para te voltar a ligar).

Aparentemente o Luís não está nas redes sociais. É dos poucos que ainda se reserva o direito de guardar para si o que é só seu ou de uns poucos.

Por causa disso não posso por-lhe likes na recuperação. Nem seguir on line os progressos.

O Luís já era assim antes das redes sociais. Quem quisesse pôr-lhe likes tinha que falar com ele, passar tempo consigo ou ir às suas exposições.

Lia-se nele a generosidade e sinceridade através de uma acessibilidade própria dos que não mostram o jogo todo. 

O Luís sempre pintou aguarelas. É um género que francamente não aprecio. Mas para ele sempre abri uma exceção.

Vendeu-me o primeiro carro (os seus bólides sempre foram uns infantes resguardados numa bolha de cuidados permanentes). Um Mini “Com tudo ainda de origem”, fim de citação. Também me vendeu a primeira casa. Um apartamento personalizado por ele até à escolha das tejoleiras e o tamanho das janelas.

É bem provável que a certa altura conseguisse vender qualquer coisa. E chegou mesmo a fazê-lo: material de escritório de embaixada, propriedades, quadros…

Despachava monos como certos pugilistas são capazes de derrubar adversários. Com lábia suficiente para conseguir um knock-out consumista ávido de salvados.

Os exemplares da coleção Vampiro e as obras completas de Agatha Christie, da editora Livros do Brasil, que tenho foi ele que me ofereceu de uma herança familiar.

Todos os dias me deixava sair de casa (não a que me tinha vendido) ao ver-me assomar com a traseira do carro (o MIni já ficara para trás há muitas mãos) ao portão ao fazer-me à entrada na estrada sobrelotada com as impaciências matinais.

Alguns buzinavam-lhe porque nem sempre a sua boa vontade coincidia com a minha saída e ele ficava à espera até eu carregar tudo na bagageira.

Sempre trabalhámos no mesmo sítio. Ele chegava primeiro apesar de me dar passagem prioritária. Eu ficava pelo caminho a deixar as MIÚDAS. 

Quando eu chegava ele já estava sentado no sítio do costume e perguntava-me pelos MIÚDOS. Eu corrigia-o e conversávamos sobre os assuntos do costume.

Enquanto deu foi fumando os cigarros entre conversas. Depois veio o politicamente correto e passou a correr para o seu carro bem estimado para o fazer.

A partir de certa altura foi ficando doente.

Provavelmente desde que começou a emagrecer.

Como certos pugilistas que são capazes de derrubar adversário e po-los K.O (como ele era capaz de despachar monos) estava otimista.

A partir de certa altura estava demasiado debilitado para voltar.

Deixou de me dar prioridade à saída do portão quando eu saía de manhã de casa.

Luís, os MIÚDOS estão ótimos. A mais nova está quase a entrar para o liceu e a mais velha já tem treze.

Pelo sim pelo não, continuo a guardar-te o lugar. Fazes-me falta. Temos muita conversa para por em dia.

Alguém me perguntou por um computador em segunda mão. Sabes de algum?

A indisponibilidade de uns é a obrigação de outros?!


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Não estão nem se obrigam a estar ou a fazer por isso.

Escusam-se.

Evitam.

Passam ao lado.

Desnorteiam, propositadamente, o GPS e riscam da agenda.

Não sabem e é quase certo que, seguramente, nunca vão querer saber.

Fora o resto, não podem nem vão poder por motivos que só lhes acontecem a eles, razões circunstanciais, estranhas, sem paralelo, inconfessáveis, incompreeensíveis e que não vêm ao caso. Mais porque sim ou só porque não.

Olham para o lado e assobiam, afinados, para o alto, num concerto abundante em lugares por preencher, impostos e selecionados por si.

Com eles não há cá talvez. É mais: "Nem por sombras!".

Lamentam, mas não têm horário para as coisas e falham, com antecedência, à última da hora.

Estão isentos através de indulto auto atribuído e, ainda assim, acham que se prejudicam.

Sofrem. Agonizam ante a hipótese de ter de ser a sua vez (que, felizmente, graças ao que der jeito e a mais qualquer coisa nunca vai chegar).

Acham que não se aplica a si.

Que são especiais.

Necessários noutro lado (incerto).

Destinados a outros voos (elevadíssimos).

Nunca é a sua hora. O seu tempo é diferente e é o nosso que, visivelmente, sobra para o que deviam fazer.

Não têm costas para carregar andores que não levam a sua imagem oca nem bolsos para peditórios alheios.

Queixam-se que não têm quem lhe tire as espinhas ou corte a carninha. Que precisavam de alguém encarregue das grainhas.

Por isso sofrem. Muito! Porque "até gostavam só que..." E acabam com dores horríveis de consciência. Em pranto histérico. Com queixumes para toda a vida. Ela que lhes é tão madrasta e que as faz gatas borralheiras quando são por direito próprio, nitidamente, cinderelas.

Para alguns a indisponibilidade é crónica. Um dado consumado.

Um direito herdado com fila própria para ir alguém no seu lugar.

Para fazer o que lhes competia.

As suas vezes.

O grande problema é o efeito dominó num jogo em que nem sabíamos que estavamos a participar.

A indisponibilidade deles tira-nos o rabo do sofá e lança-nos numa hora de ponta exclusiva.

Candidata-nos sem precisarmos de inscrição.  

Torna-nos, automaticamente, voluntários à força. Condenados a uma pena sem crime.

Atribui-nos vagares e possibilidades. Um relógio sem prazos e mais generoso para nós, lento ou acelerado consoante a sua comodidade. Rápido porque tudo se faz bem e depressa, vagaroso para ser possível e não haver desculpas.

A divisão fica comprometida. Os direitos e deveres tornam-se anedotas.

A indisponibilidade é trágica.

Os que a reclamam para si acreditam que para uns (eles) estarem bem alguém (os outros) tem que estar mal.

Para a compensar vão oferecendo presentes envenenados, embrulhados em falinhas mansas e boa vontade de faz de conta.

Felizmente a sua atitude liberta-nos dos remorsos de dizer NÃO.

E, ironicamente, embora nunca o percebam, aceitem ou considerem, para eles também nunca estaremos presentes a não ser que sejamos obrigados.

Faz como entenderes, mas olha que…

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Ouvir: "faz como entenderes, mas olha que…" exige atenções.

Despoleta sinais de alerta e alarmes de perigo iminente.

Obriga a olhar para todos os lados porque o atropelamento é inevitável, num percurso acidentado e cheio de vítimas.

Seja onde for, a política  do “ninguém obriga, mas…." traz implicações: falsas amizades, ronronares graxistas, rancores, promoções adiadas, aumentos protelados, perdas.

Manda-nos para a casa de partida porque os da faca e o queijo na mão concluem: "Afinal, ele…" baseados no: "É só porque…". 

Porque: fulano faz, sicrano comprometeu-se, algures há quem se disponibilize ou não se importe.

É um: "ganhavas mais" - cheio de gente para ir à nossa frente e fazer as nossas vezes (não obrigatoriamente os melhores que nós). 

Um: "perdes mais do que ganhas!" arqui-inimigo do "Não estou para isso!".

É uma falsa liberdade de: "tu é que mandas, porém se souberes o que é bom para ti…".

Um colete de forças oferecido por quem tem a última palavra.

Chantageia.

Borrifa-se.

Isenta-se de moralidades.

É uma traição ao voluntarismo.

Fica-se pelo: “Põe-te à tabela!”.

Toma a iniciativa por nós e faz a nossas vezes na decisão final.

Compromete assistência à família e tempo livre e alimenta flexibilidade com gula de apetite voraz de quem passa à frente na fila do almoço.

Serve para quem o pratica (ou exige considerar) para o que lhe apetece.

Inscreve-nos numa competição em que não queremos participar, mas que não contempla falta de comparência.

Lembra ao que vamos, o que precisamos e recorda o que podemos perder.

Apresenta exemplos de quem faz para nos levar à conclusão acertada a tirar que está, ainda assim, na nossa mão.

Põe-nos num sítio escolhido por terceiros. 

É um: "Tu é que sabes, mas vê lá no que te metes!".

Aparenta complacência, mas é displicente.

É um: "A gente sabe o que diz a lei, mas aqui as coisas moem de outra maneira!".

Consegue justificar os ponteiros andarem de maneira diferente. Tira e põe minutos, acrescenta e retira o que lhe apetece. 

Muda rotação por translação e sobra-lhe tempo para rever a situação do eixo.

Anda pelo cinzento porque não está para o preto e branco.

Porque como se costuma dizer "quem com ferros mata com ferros morre", o aspirante a ditador acaba, sem dar conta, envolto num imbróglio com quem é apanhado nas suas malhas e sofrendo a sua ação. Não conseguindo melhor do que um: "Claro, claro, eu faço, mas…. podia fazer bem mais e muito melhor". 

Façam como entenderem eu, por mim, olhem que…

Saco Roto - enganar muita gente durante um certo tempo, algumas pessoas todo o tempo, mas nunca para sempre

 

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Cair em saco roto é vulgar, de quem não gosta de desafios e na direta proporcionalidade da indiferença.

Um remoinho, traiçoeiro, na espuma dos dias que arrasta, discreta e fatalmente, para o fundo os que lutam, simplesmente, por se manter à tona tanto quanto os que querem chegar o mais longe possível.

Raramente se houve gritar "homem ao mar!" na esperança de salvar do lamaçal medíocre das mesmas soluções de sempre os que não se querem deixar arrastar pela corrente.

Não é fácil resistir-lhe!

Cair em saco roto é uma arte obtusa, ancestral e enraizada como um refugado monótono que deixa de água na boca os de palato simples. 

Tem vistas curtas e é executada com matizes pacificadores. Orquestrada com melodias de canção do bandido, capazes de fazer corar de inveja o mais hábil flautista de Hamelin, pelos que querem ver os outros de viola no saco.

Um jogo viciado, de batota consentida, em que as melhores cartas nunca chegam às nossas mãos.

É oferecerem-nos, generosamente, um “sim” bem intencionado, só para nos calarem, que acaba, no fim, como um meloso “como eu quero”.

É subtil.

Todo sorrisos e palmadinhas nas costas.

E compreensão.

Tem memória curta e só para o que lhe interessa.

É de quem, enebriado pelo poder (ou pela ilusão de o deter), se põe no nosso lugar mas que regressa, rapidamente, ao seu.

É ajudarem-nos, de forma insuspeita mas, no fundo, estarem a convencer-nos da probabilidade de algo em que só nós acreditamos.

Cala a revolta mas é falar para o boneco.

É ilusoriamente retemperador.

É agradecerem-nos termos chamado a atenção e não haver consequências nem partilha de dividendos.

É ecuménico e politicamente democrático, na igual medida em que é uma fé cega e uma política de faz de conta.

É oferecer-se para ouvir e ficar indisponível para trocar ou mudar.

Concordar sabendo que vai ficar tudo igual.

O saco roto afasta as novas ideias.

Desvaloriza Know-How e afasta quem quer dar o corpo ao manifesto.

É um “Humm, Humm!” com um “deves achar que” implícito.

Atira percentagens e estribilha convicções só para nos desarmar.

Sorri-nos sem nos estar, realmente, a ouvir.

O saco roto é enganador porque é solidário e conciliador.

Diplomático.

Um faz de conta.

Nele abundam os “ses” e os “mas” e os “talvez”.

É ficarmos contentes com a reunião, ficar tudo na mesma, nós termos caído na esparrela de uma arbitragem viciada e à saída termos agradecido.

No entanto, como diria Abraham Lincoln: "pode enganar-se muita gente durante um certo tempo. Pode até enganar-se algumas pessoas todo o tempo, mas não será possível enganá-las para sempre".

Além do mais, o cair em saco roto tem, obviamente, um preço elevado e apresenta uma fatura repartida por todos: o desinteresse.

E o desinteresse com desinteresse se paga.